America Iracema: o violão eterno do último dos tabajaras

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Herundy ‘Antenor’ e Mussaperê ‘Natalício’ (o ‘quarto’e o ‘terceiro’ de uma família tabajara )
A saga de ‘Los Indios Tabajaras’
“…O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do Ceará,
levando no frágil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quis deixar
a terra onde repousava a amiga e senhora. O primeiro cearense, ainda no
berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma
raça?”
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O que evoca para você a expressão ‘
Tabajara’? Alguma remota e quase extinta tribo indígena do
Brasil?
Ou seria um jocoso sinônimo de baixa qualidade, coisa mal feita, ruim,
atributos aos quais a palavra passou a ser associada, depois daquelas
piadas infames da turma do
Casseta & Planeta:
‘Organizações Tabajara’, ‘
Tabajara Futebol Clube’, etc., aquele negócio de apelidar de ‘
Tabajara’ tudo que é coisa reles, imprestável enfim?
Só pra começar, fosse eu um tabajara também iria esbravejar
revoltado, doido para tacar logo a borduna na cabeça destes desafetos
sem mãe (e até mesmo o pobre do
Bussunda, se vivo fosse, ia entrar no pau).
A gente até ri da piada, afinal nossa sociedade está mesmo cheia de
coisas para serem zoadas, ricularizadas, mas convenhamos: é chato pra
caramba, é mesmo triste e lamentável constatar que no Brasil
banalizamos, principalmente o que é brasileiro. Uma cultura de
banalidades indígenas, atrasadas, é isto que a palavra
Tabajara nos evoca assim, no ato.
Um Brasil primitivo, brega, bugre, que o nosso pretenso cosmopolitismo quer esquecer.
Mas é só forçar a memória um pouco que a gente vai se lembrando
daquelas palavras estranhas, exóticas, que íamos aprendendo logo nos
primeiros anos de escola e que as pobres das professorinhas diziam para
nós assim, cheias daquela presunção-rainha que as moças de terra de cego
tem:
_”
Palavras do ‘Tupi-Guarani’_ diziam elas, _”
Um ‘dialeto’ falado por todos os índios do Brasil”.
Pagé, Tupã, buriti, jaçanã, Poti… Lembraram? Isto mesmo. Era um
tupi-guarani tosco, escasso de valor linguístico, apenas uma meia dúzia de vocábulos soltos, pinçados pelo escritor
José Alencar (nosso indianista mais fervoroso) no seu mui famoso romance indianista
Iracema de 1865, escrito com intenções de reproduzir alguma língua ‘tabajara’ (agora sim, no mal sentido) que ele copiou de algum
google de sua época, algum glossário apressado de termos da chamada
‘Língua brasílica’, um português colonial, castiço usado no interior do Brasil naquela ocasião.
Mas imaginem! São centenas as línguas faladas pelas inúmeras tribos
de índios sobreviventes no Brasil de hoje, já depauperadas pela
voracidade predatória dos brancos sim, claro, mas ainda assim línguas
originais, dignas de algum dicionário, por menor que seja. Já pensaram a
babel que era aquilo, aquela nossa selva quase intacta ainda, no século
19?
Mais lembrem um pouco mais e vejam que curioso: A língua principal destes índios míticos de Alencar – o
Tupi-Gurarani – seria, exatamente aquela falada pelos índios… ‘
Tabajara’, do Ceará mais remoto e longínquo. É isto:
Tabajara,
segundo Alencar, um cearense orgulhoso de si, era um dos povos-matriz
da ‘raça’ mestiça brasileira (pelo menos nesta parte de nossa praia
biotípica já que ele não considerava ainda o negro como parte desta
mestiçagem tão discutível).
“Martins Soares Moreno,
De cavalheiresco ardor,
Por amor à índia formosa,
Virgem de morena cor
Fundou a Pátria ditosa
da liberdade e do amor”
A raça brasileira de Alencar se completava assim com a conjunção
carnal entre o português Martim (baseado numa história de amor
supostamente verídica vivida por um tal de Martins Soares Moreno) e a
bela índia
Iracema, uma legítima…
tabajara (que – vejam que incrível! – segundo rezam algumas fontes, seria um anagrama de ‘America’)
I-R-A-C-E-M-A = A-M-E-R-I-C-A
Não é engraçado que o que para Alencar era a ‘verdade’ da formação de
nossa nacionalidade esteja hoje tão associado a uma suposta ficção, uma
eventual invenção anagramática?
Mas a verdade verdadeira mesmo é que, para sacramentar de vez a
semgracice da generalização da piada de brasileiro, nem seria preciso ser índio para ficar revoltado não:
A palavra
Tabajara além de ser o nome real desta valorosa e
emblemática tribo do Brasil mais profundo, com marcas simbólicas tão
fortes, de uma forma ou de outra, impregnadas na alma histórica do país,
mais do que isto,
Tabajara marca também – e não menos
indelevelmente – a música do nosso mundo inteiro, imprimida pelo
trabalho de uma dupla de músicos virtuoses, eméritos violonistas, cuja
história impressionante honrará o nome de sua tribo – e a de seu país, o
Brasil – para todo o sempre.
Quem levantou esta lebre foi o
Marcus Vinicius Garcia, contando no último
Das GroBe Kulture Seminar, emocionado a saga existencial e musical do duo violonístico
‘Os Irmãos Tabajaras’.
Não sabiam disto não? Sabem que nem eu? Olhando agora mesmo na internet
pude encontrar um mundo de informações sobre eles, a maioria,
infelizmente oriunda de sites, revistas e jornais norte americanos.
Ouvindo as inúmeras gravações existentes das performances deles no
Youtube, lembrei tão emocionado quanto Marcus, de músicas que tocando no
rádio, marcaram a minha infância (como o hit
Maria Elena, por exemplo, gravado em 1958 cuja letra de
Lorenzo Barcelata dizia, romanticamente:….
’Maria Elena és tu’…)
A versão instrumental desta música do duo
Los Indios Tabajara
é tão inesquecível que chega a ser quase um crime, em termos, que o
nome destes artistas geniais não seja tão famoso por aqui quanto a
gravação, que eu, ignorantemente sempre atribuí a algum violonista
mexicano, cubano ou portoriquenho.
Um mexicano, um portoriquenho ou mesmo um cubano, em certas
circunstancias, também são, de algum modo, índios. Mas o que nos importa
mesmo é que os estes
índios Tabajara, genios e heróis da
música popular e erudita internacional (erudita sim, porque eles eram
especializados, entre outros autores, em
Chopin) são coisa nossa,
índios do Brasil dos quais a gente devia muito e orgulhar, jamais ignorar ou desconhecer.
Mussapere ou Natalício Moreira Lima, o
Nato Lima,
o solista da dupla, o tabajara sobrevivente, aquele que tocou de forma
genial a arte de seu violão até aproximadamente os 91 anos, morreu em
Nova York em 2009.
Você havia ouvido falar disto? Pois bem. Esta é a impressionante história da travessia destes filhos de
Iracema da
selva tropical mais remota para a notoriedade artística na maior
metrópole do mundo. A travessia de ‘Los Indios Tabajara’ foi, portanto
uma descoberta da
América.
Em toda história o começo é pelo fim
…”Na tarde do último domingo, 15 de
novembro (2009), o violonista cearense Natalício “Nato” Lima, 91 anos,
radicado há várias décadas nos Estados Unidos, perdeu a longa batalha
contra um câncer de estômago. Ele estava internado no Katerina Nursing
Home, em New York City.”
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Segundo todos os seus fascinados contadores a história de
Los Indios Tabajaras é tão inacreditável que bem poderia ser uma história de cinema. De todos estes contadores o mais feliz foram o próprio
Nato Lima (Mussapere) e Luiz Nassif que conseguiu este fantástico depoimento dele,
Mussapere-Nato, em 2004, por telefone, do qual publicamos aqui alguns trechos:
“Nasci na serra do Ibiapaba, entre Piauí e Ceará. Nesta serra, em
1929, existia Ubajara, cidade pequena, lugar famoso hoje. Naquela época
não era. Um dia apareceu por lá uma tropa de militares, chefiada pelo
tenente Hildebrando Moreira Lima.
Era muita gente e mudou nossa história. Não tínhamos cidade,
éramos uma tribo mesmo, fomos criados na tribo Tabajara, morando em um
terreno que não era nem Ceará nem Piauí, era uma área de litígio.
A tropa de militares foi para lá para amparar uma tropa que vinha
do Piauí, de um lugar chamado Tucurutiba. Passaram por lá 20 dias.
Fizemos amizade. Não éramos aqueles selvagens que todo mundo dizia que
os índios eram. Nós estávamos a um quilômetro da beirada da serra.
Um dia meu pai saiu da aldeia e disse que viu um buraco enorme
nos pé da serra. Nós estávamos na chapada e meu pai havia visto serra
abaixo. Aí começou uma ventania, uma chuva e ele passou três dias ali.
Quando voltou à tribo nossa, antiga, disse que nunca havia visto buraco
tão grande. Viu lua sair do chão. Nós ficamos curiosos porque nunca
vimos lua sair de lugar nenhum, apenas de trás das árvores.
Nós fomos em três irmãos até lá, chegamos lá e começamos a comer
fruta enorme, besta, que não vale nada, chamada Ingá, maior que feijão e
contém espécie de algodão em volta, muito doce, muito bom. Quando
olhamos, vimos um violão, metemos a mão, fez aquele som, levamos um
susto.
Levamos para tribo. Naquela época, os índios não deixavam ninguém
chegar a menos de 600 metros dali. Vivíamos isolados. O violão causou
transtorno na tribo. Havia outro som que escutávamos às seis da tarde, e
não sabíamos o que era. Nós, pequenos, pensávamos que era violão. Era
sino de cidade a uns 60 quilômetros dali, o sino de Ibiapina, assim
chamada porque lá era terra completamente pelada.
Um dia um soldado levou flechada, era um soldado baiano, um
mulatinho bonito. Os curadores da tribo curaram com infusões em menos de
cinco minutos, uma espécie de leite que se faz da folha de uma árvore.
Dois ou três pingos igual que leite. Depois de cinco minutos fica uma
cola horrível. Nossos curadores curaram aquele soldado que caminhou na
mesma hora. Os soldados ficaram muito admirados. Eles já tinham trazido
caixão branco com cruz. Começou ali amizade entre ele e uma das meninas
da tribo.
Quando soldados se foram começamos a sentir saudades do café,
bolacha redonda de meio palmo e carne seca. Nós não conhecíamos, e
também gostávamos da corneta dos corneteiros. Só tocava quando ordenado,
mas algumas vezes tocava algumas coisas.
Eu tinha 8 ou 10 anos. Tribo tinha menos índios que soldados, que eram mais de mil. Nós éramos uns 700.
Diziam que meu pai era guerreiro ou chefe. Não era. Ele perdeu o
colar de guerreiro, porque na tribo o guerreiro ganha aquele colar de
dente de onça. E o pai perdeu por coisa incorreta que fez. Não permitiam
nem que ele caçasse. Para casar necessita ser guerreiro. Como tinha
casado antes de perder o colar, tinha 13 filhos.
A mãe estava grávida do 14º, todos homens, cada um com seu número
no nome. Mas a gente dava número e não conseguia contar mais que cinco.
Toda noite contava as estrelas e não passava de cinco.
Usavam muito medicina de mato. Eu gostava de comer barro e
passava mal. Tinha vício daquilo e quase morri. Os curadores diziam que
eu iria morrer daquilo, porque criava bicho na barriga.
Os militares foram embora, mas nos deixaram batizados. Padre que
se chamava Magalhães, andava sempre de preto e se ajoelhava, a gente
ficava admirado. Na cidade tinha gente de todas as cores, preto, branco,
loiro, alguns com barba no rosto.
No Rio, começamos a tocar na rua. E nos jogavam algum dinheiro e a
gente ia vivendo bem, mas dava muito vergonha porque éramos grandes,
já.
Dali saímos a viajar no Circo, fomos a Belo Horizonte. Durante o
dia fomos a um cassino e conhecemos artistas, o Alvarenga e Ranchinho.
Até falei para a minha esposa que quer ir lá, porque tinha águas
quentes…E fui também para Ouro Preto e Alto do Rio Doce. Chegamos a ir
até a rádio Nacional, depois de voltar do Cassino da Pampulha.
Eu disse ao Alvarenga: agora nós temos um som de qualidade. Mas
temos problema, porque o cassino em que vocês trabalham quer nos
contratar, mas nós temos contrato com o circo, que não paga coisa
nenhuma. Ele disse: “vocês vão me levar ao circo que falo com o dono e
rompo com o contrato de vocês. Agora à noite, quando for tocar, vocês
desafinam os dois violões e cantam muito ruim, o pior que vocês podem. O
dono do circo vai ficar muito zangado”.
O dono do circo sabia que nós éramos dos índios e tínhamos
estampa boa, mas não sabia que a gente cantava. O povo aplaudia por
causa da roupa indígena e da simpatia, mas o talento era muito ruim.
No dia seguinte Alvarenga foi lá e disse que queria comprar os
artistas. O dono: quanto você paga? Alvarenga: nós não pagamos grande
coisa porque esses artistas não valem nada. O cara disse: um conto de
réis.
“…Quando chegamos no México nos anunciaram: ‘Índios Tabajaras’,
completamente ignorantes de música. Quem nos anunciou foi Ricardo
Montalban, que não era conhecido na época. Era no Night Club El Pateo,
cujo diretor era Miranda.
…Depois que escutei aquele negócio do Chopin, no outro dia sai
para comprar música, comprei partitura de piano, ‘Clemente Partitura de
Piano’ e ‘Compêndios de Moderna Harmonia de Rimsky-Korsakov’.
Um ano no México estudando dia e noite sozinho, sem professor, e aprendi a ler música. E examinei todas as músicas de Chopin,
Quando chegamos na RCA Vitor, diziam: são os maiores do mundo do
violão. Ninguém acreditava nisso. Os violonistas não dizem quem é o
maior, mundo é grande demais: mas eu acho que ninguém toca aquela valsa e
o “Vôo do Besouro” que nem nós. Até hoje tocam nas reprises do Eddy
Sullivan, a gente vestindo de índio, e eu ainda me admiro.
Ganhamos muitos milhões de dólares, mas nunca guardamos. Meu
irmão faleceu oito anos atrás. Não era muito chegado aos sacrifícios da
música. Nós temos que passar horas e horas. Música clássica leva muito
tempo e, ademais, faço transcrição de piano para dois violões.
Na “Valsa em Dó Sustentido Menor” botei sexta corda grossa, tem
som do piano. O mi, coloco em lá, igual à quinta corda. É uma guitarra
de sete cordas, mas afinada em lá. A sexta dá som muito melhor que no
piano. A última corda do piano é lá bemol, mas não tem som, não se sabe
se é lá, é muito grave. No baixo sinfônico de quatro cordas, aquela nota
se escuta. Mas no piano não.
O meu violão era um tom mais alto. É menor, o braço é mais curto,
tem 26 trastes, que passam da boca do violão. São notas muito altas,
igual ao piano e ao violino. Notas muito altas e o lá sustenido.
Todos os violonistas de Espanha daquela época, Regino De La
Matta, o maior violonista espanhol, o crítico do Diário ABC de Madri,
não quis ir ao concerto e não acreditava que índio pudesse tocar música
clássica. Foi um sucesso. Teatro Lope de Vega, teatro elegante.
…Agora sou Nato Lima. Americano gosta de nome curto e ficou.
….Os maiores violonistas: conheci na Espanha o Regino. Os grandes
daquele época não são os grandes de hoje. Hoje existem melhores. No
Brasil tem alguns entre os maiores: Sérgio Abreu, os irmãos Assad,
Turíbio Santos, também muito bom, e Barbosa Lima, que também é muito
bom. E todos estiveram em casa, porque sou muito velho e eles pensam que
vou morrer no próximo ano. Mas a gente de minha família vive muitos
anos.
….Quando vim para cá me deram título americano, mas disseram que
não queriam tirar minha nacionalidade porque sabiam que eu iria voltar
ao Brasil. Tenho terras, irmãos lá. Eles me disseram: com título
americano você tem uma vantagem: se você caçar na Amazônia e se você se
perder lá, nós mandamos sete helicópteros para encontrar você.
Meu plano é ir morar no Brasil dentro de 3 anos. Mas a vida aqui é
tão boa, uma moleza. O dinheiro chega do estrangeiro, e eu nem sei de
onde vem, 43 países me mandam dinheiro de lá, e algumas vezes, nos
últimos anos, tem engrossado.
Moro em frente da sociedade que arrecada dinheiro, perto do
Central Park. Tenho 45 composições registradas. Tem tanto dinheiro que
fico desconfiado.
Não fiquei milionário nunca porque nunca juntei dinheiro. Algumas
vezes distribuí porque era muito. Hoje ganho 3 mil, 4 mil dólares por
mês e é bastante. Às vezes recebo 9, 10 mil. Meu sonho é morar no mato,
mas no dia em que encontrar terra, talvez no estado de São Paulo, entre
São Paulo, Campinas, Jundiaí. Quero 10 alqueires”.
Nosso repertório é de música popular de acordo com o gosto do
povo. Nós somos brasileiros, mas tocamos de acordo com o gosto do povo,
para vender disco, para ter dinheiro para comer, trocar roupa. Aqui nos
EUA estamos rodeados de países espanhóis. Se colocar só música
brasileira, não vende. “
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Em 1920
Mussapere e
Herundi eram dois
indiozinhos nascidos numa aldeia tabajara no interior do Ceará, Brasil.
Seus nomes são números, segundo a ordem de nascimento.
Mussapere ‘Nato Moreyra Lima’, o ‘terceiro’ filho daquela família tabajara não é, mas poderia ser chamado hoje sim de
‘O último dos Tabajaras’.
fonte: wordpress.spiritosanto.com visita:26agost2015.