quarta-feira, julho 29, 2026

AS SECAS e o MUNICÍPIO DE UBAJARA: SECA DE 32

 Por  Messias  Costa


O  primeiro  registro  sobre  a  ocorrência  da  seca  foi  referente  aos  anos  de  1499-1500.  Naquele  tempo  nem  nome   o  território  tinha.  Daí  em  diante,  são  inúmeras  as  anotações.  Em  1605 – 1606,  quando  Pero  Coelho  de  Sousa  esteve  no  Ceará  e  na  Ibiapaba,  foi  tempo  de  seca  e,  claro,  de  sofrimento  para  pessoas  e  animais.  E  imaginemos  os  efeitos  da  calamidade:  fome,  sede,  doenças,  mortes,  muitas  mortes.

         Agora  imaginemos  quando  a  seca  acontece  num  período  de  dois  anos.  Esta  condição  ocorreu  por  várias  oportunidades.  Assim  o  foi  em  1614  e  1615.  E  outras  sequencias  cronológicas  de  fenômenos  climáticos  rigorosíssimos:  1692-1693, 1736-1737, 1777-1778,  1816-1817, 1819-1920.  As  secas  de  1833-1834,  empurraram  algumas  famílias  para  a  região  da  Ibiapaba.  Imaginemos  o  panorama   de  uma  seca  de  um  ano.  E  quando  a  seca  passava  de  um  ano  para  o  seguinte.  O  drama  das famílias  que  perdiam  os  seus  membros  queridos,  todos  os  dias,  vendo  eles  morrerem  à  míngua,  sofrendo  a  dor  da  fome.

        Em  1836,  chegaram  ao  território  do  atual  município  de  Ubajara,  as  famílias  de ”Manuel  Luiz  Pereira  localizou -  se  no  lugar  Pavuna,  em  1836;  Cosme  Fernandes  do  Rego,  no  sítio  Pau – Pitanga,  em  1839; os  irmãos  Manuel  Soares  e  Silva  e  Francisco  Soares  e  Silva,(...)  em  1840,  estabeleceram – se  o  primeiro  no  sítio  do  Meio  e  o  segundo  no  sítio  Buriti”,  conforme  os  apontamentos  para  a  história  de  Ubajara, de  Hemetério  Pereira,  para  a  Revista  do  Cinquentenário  de  Ubajara.   

       Em  1915,  outra  seca  muito  rigorosa  atingiu  o  estado  do  Ceará.  E  novamente,  muita  sede,  fome,  doenças  e,  muitas  mortes.  Uma  leva  de  esqueletos  humanos  vagueavam  pelas  estradas  do  sertão  e  das  serras  a  pedirem  um  copo  dágua,    um  pedaço  de  pão  e  uma  sombra  para  proteção  contra  o  sol  escaldante.  A  seca  do  quinze  foi  o  mote  para  Raquel  de  Queiroz  escrever  o  QUINZE,  romance  realista  que  mostra  as  agruras  da  seca  terrível. Na  crise  climática  de  1915,  o  governo  do  estado  do   Ceará  promoveu  a  criação  de  campos  de  concentração  de  flagelados  no  interior.        

        Mas   agora    estamos  em  1932.  E  não  foi  diferente  de  outras  épocas  de  estiagem  rigorosa.  Neste  período,  o  governo  do  estado  do  Ceará  criou  campos  de  concentração  com  o  objetivo  de  evitar  que  os  sertanejos  flagelados  chegassem  até  a  capital  Fortaleza.  Os  campos  de  Ipu,  Senador  Pompeu,  Quixeramobim,  Carius  e  Buriti  deram  acomodação  para  72  mil  retirantes;  Em  dois  campos  de  concentração,  em  Fortaleza,  foram  retirados  1.800  seres  esquálidos,  quase  esqueletos  vivos.  Os  campos  eram  os  de  Alagadiço  e  dos  Urubus,  sendo  bastante  sugestivo  o  nome  do  campo: urubus!

EM  UBAJARA  à  época.

Era  prefeito  interventor  do  município  de  Ubajara,  em  1932,  o  segundo  Tenente  RAMIRO  ANTONIO  DE  SOUSA  que,  devido  à  grande  seca,  no  seu  auge,   para  garantir  a  alimentação  para  as  famílias  ubajarenses,  decretou  que  nenhum  item  alimentício,  feijão,  farinha,  milho,  arroz,   produzido  no  município  fosse  vendido  para  fora  dele.

E  este  o  teor  do 

Decreto  n  23  de  20  de  junho  de  1932

 

Regula  a  saída  dos  gêneros   de  primeira  necessidade  produzidos  no  município  de  Ubajara  ou  armazenados  no  mesmo.

 

O  prefeito  municipal  de  Ubajara, 2º. Tte.  Do  Exército,  Ramiro  Antonio  de  Sousa,  no  uso  de  suas  atribuições  legais,  e

 

Considerando  que,  enquanto  se  fizerem  sentir  os  efeitos  da  grande  crise  climatérica  que  ora  assola  o  Estado,  é  de  máxima  importância  para  este  município,  a   regularização  da  saída  de  seus  principais  gêneros  de  produção;

 Art. 1º. -  Fica  expressamente  proibida  a  saída,  para  fora  deste  município,  enquanto  durarem  os  efeitos da  atual  crise  climatérica,  de  qualquer  quantidade  de  feijão,  farinha,  milho,  arroz  ou  outro  qualquer  gênero  de  primeira  necessidade,  produzido  ou  armazenado  no  mesmo;

 Art. 2º. -  Todo  e  qualquer  gênero,  porém,  poderá  ser  exportado  desde  que  seu  comprador  ou  vendedor  requeira  a  esta  Prefeitura  e  obtendo  da  mesma  a  respectiva  licença  para  tal;

 Art. 3º. -  Revogam – se  as  disposições  em  contrário.

 

Paço  Municipal  de  Ubajara,  20  de  julho  de  1932

 

Ramiro  Antonio  de  Sousa.  aa

2º. Tte – Prefeito  Municipal

 Dos  livros  antigos  da  Câmara  Municipal  de  Ubajara.

                                                                                                            Mecosta  julho 2026


Nenhum comentário:

Postar um comentário

BANCO DE BIOGRAFIAS

AS SECAS e o MUNICÍPIO DE UBAJARA: SECA DE 32

 Por  Messias  Costa O   primeiro   registro   sobre   a   ocorrência   da   seca   foi   referente   aos   anos   de   1499-1500.   Naquele...